quinta-feira, 19 de abril de 2012

Abandono

A garganta doía, doía de verdade (não é uma metáfora); como quando tomamos um peteleco na garganta, mas era muito pior. A pele apertada rangendo contra a corda, ferindo. Minha pele ficava roxa, minhas pernas de debatiam e meu corpo lutava desesperadamente por uma salvação. Meu corpo provavelmente não sabia o que estava guardado em minha mente e nem o que doía em meu coração, meu corpo não sabia que na verdade aquela era a minha salvação.
Estou cansada, estou farta de sofrer, de ser julgada, de ser humilhada. Meu cabelo avermelhado que papai e mamãe me deu, minhas sardas que ardem no sol, minha pele pálida, meus dentes separados, meu sorriso constrangido. Tudo isso, sempre foi motivo de piada. Nunca fui aceita, nunca tive amigos de verdade. Você leitor, amigável, provavelmente não sabe qual é a sensação de passar 16 anos de sua vida tendo apenas sua mãe e vez por outra o seu pai pra conversar, pra rir, pra falar bobagem. 16 anos sem nunca ter sido convidada a uma festa e passar os sábados a noite em casa lendo sobre a rejeição, lendo sobre superação, lendo sobre cordas e como fazer uma forca. É amadora, mas funcionou muito bem... Eu devia ter acolchoado-a... Não queria sentir mais dor, queria que minha morte fosse calma e indolor. Eu já senti dor demais minha vida toda. Só quero descansar do lado de deus e poder perguntar "eu tenho certeza papai, você não queria que nada disso fosse assim não é mesmo?". No céu tem pessoas boas, será que terei algum amigo finalmente?
Foram 16 anos, entrando na escola, sentando-me sozinha, indo embora sozinha. Limitando-me a responder apenas o que me era perguntado e quando era devido, pois já fui tão renegada que até mesmo responder e falar em voz alta me constrangia. Depois de tudo, só queria estar no canto, sem falar pra não ser notada. Por que minha identidade era tão insignificante que quando eu era notada, era alvo de palavras sacanas, ríspidas, sujas. Para eles era engraçado. Em mim doía... Cada palavra, sílaba, letra me atingia feito uma faca e perfurava minha pele, minha carne; meu orgulho.
Eu só desejo que todos eles encontrem tudo o que eu encontrei; desespero. Quero vê-los lá de cima agora, sofrendo e chorando nos cantos de suas casas, com culpa e com ódio por serem tão nojentos e repugnantes. Quero ver lágrimas, quero ver o sangue escorrendo do pulso da Isabela, quero ver a bala atravessando a boca do Lucas, quero sorrir com a boca da Ana espumando em uma overdose após tomar todos os remédios da drogada de sua mãe. Eu quero ver a morte, o sangue, a dor física, por que a dor emocional que eu carreguei todo esse tempo iria se demorar muito para conseguir, e eu não aguento mais essa impunidade! Quero ver, todos mortos, e vou rir e observar todos queimando no inferno, como brasa.
Mas agora é a hora, já estou vendo o fim daqui de dentro do meu guarda roupa. Agora eu já vou. Já ouvi um estalo de um osso quebrando em meu pescoço e como por mágica, minhas pernas pararam, meus braços pararam de funcionar. A morte esta vindo.
Vida e morte é escolha de seu dono. Eu escolhi isso. Não queria, mas é a única saída que tenho agora.
Com amor; ruiva.

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