A garganta doía, doía de verdade (não é uma metáfora); como quando tomamos um peteleco na garganta, mas era muito pior. A pele apertada rangendo contra a corda, ferindo. Minha pele ficava roxa, minhas pernas de debatiam e meu corpo lutava desesperadamente por uma salvação. Meu corpo provavelmente não sabia o que estava guardado em minha mente e nem o que doía em meu coração, meu corpo não sabia que na verdade aquela era a minha salvação.
Estou cansada, estou farta de sofrer, de ser julgada, de ser humilhada. Meu cabelo avermelhado que papai e mamãe me deu, minhas sardas que ardem no sol, minha pele pálida, meus dentes separados, meu sorriso constrangido. Tudo isso, sempre foi motivo de piada. Nunca fui aceita, nunca tive amigos de verdade. Você leitor, amigável, provavelmente não sabe qual é a sensação de passar 16 anos de sua vida tendo apenas sua mãe e vez por outra o seu pai pra conversar, pra rir, pra falar bobagem. 16 anos sem nunca ter sido convidada a uma festa e passar os sábados a noite em casa lendo sobre a rejeição, lendo sobre superação, lendo sobre cordas e como fazer uma forca. É amadora, mas funcionou muito bem... Eu devia ter acolchoado-a... Não queria sentir mais dor, queria que minha morte fosse calma e indolor. Eu já senti dor demais minha vida toda. Só quero descansar do lado de deus e poder perguntar "eu tenho certeza papai, você não queria que nada disso fosse assim não é mesmo?". No céu tem pessoas boas, será que terei algum amigo finalmente?
Foram 16 anos, entrando na escola, sentando-me sozinha, indo embora sozinha. Limitando-me a responder apenas o que me era perguntado e quando era devido, pois já fui tão renegada que até mesmo responder e falar em voz alta me constrangia. Depois de tudo, só queria estar no canto, sem falar pra não ser notada. Por que minha identidade era tão insignificante que quando eu era notada, era alvo de palavras sacanas, ríspidas, sujas. Para eles era engraçado. Em mim doía... Cada palavra, sílaba, letra me atingia feito uma faca e perfurava minha pele, minha carne; meu orgulho.
Eu só desejo que todos eles encontrem tudo o que eu encontrei; desespero. Quero vê-los lá de cima agora, sofrendo e chorando nos cantos de suas casas, com culpa e com ódio por serem tão nojentos e repugnantes. Quero ver lágrimas, quero ver o sangue escorrendo do pulso da Isabela, quero ver a bala atravessando a boca do Lucas, quero sorrir com a boca da Ana espumando em uma overdose após tomar todos os remédios da drogada de sua mãe. Eu quero ver a morte, o sangue, a dor física, por que a dor emocional que eu carreguei todo esse tempo iria se demorar muito para conseguir, e eu não aguento mais essa impunidade! Quero ver, todos mortos, e vou rir e observar todos queimando no inferno, como brasa.
Mas agora é a hora, já estou vendo o fim daqui de dentro do meu guarda roupa. Agora eu já vou. Já ouvi um estalo de um osso quebrando em meu pescoço e como por mágica, minhas pernas pararam, meus braços pararam de funcionar. A morte esta vindo.
Vida e morte é escolha de seu dono. Eu escolhi isso. Não queria, mas é a única saída que tenho agora.
Com amor; ruiva.
quinta-feira, 19 de abril de 2012
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Do outro lado...
Eu até queria mudar, mas isso me chama todos os dias. Eu ouço em minha mente latejante os gritos de uma coisa inanimada invocando meu nome. É como se dissesse "venha até a mim, você precisa de mim". Me sinto fraco, me sinto incapaz. Já fui um doente, hoje eu sou um animal.
Não era por maldade que eu saia todos os dias, em busca de comida pro meu filho, de assistência pra minha família, fazia de tudo, corria, catava, pedia. As vezes deus ajudava, conseguia um pouquinho, as vezes deus nem me olhava, ou ria das minhas lágrimas. E quando deus, me colocava no caminho pessoas de coração bom, que me dava uns trocados, meu coração se enchia de alegria "hoje vou levar pão pro meu filho, e quem sabe não compre um doce pra ele sorrir pra mim", mas como se o mundo fosse o inferno, o diabo subia e se colocava em minha frente. Ele sabia dos meus problemas, ele sabia dos meus defeitos. Eu fraquejava. Bebia. Deus me largava lá e eu não sentia mais amor. Não sei!
Acordava em casa, jogado no chão, em cima da cama, deitado no sofá. Meu filho ainda chorava, minha mulher chorava, com um olho roxo, um nariz sangrando. Minha casinha humilde bagunçada, e minha sogra me dizia "você fez de novo, você precisa se tratar". Oh meu deus, com que dinheiro? O governo me vira a cara, a sociedade me discrimina, meu filho já não me ama.
Fui-me embora. Nada peguei, sai numa noite escura, nunca mais olhei pra trás.
Penso em voltar, mas o medo de magoa-los novamente me faz hesitar e continuar aqui, na rua, dormindo com porcos, comendo do lixo, conversando com pombos e sofrendo por eles e por tudo que perdi.
Soube que minha mulher morreu, na fila de um hospital imundo. E eu não estou lá pra ajudar meu filho que sempre sonhou tanto com uma família feliz. Minha mulher morreu, meu deus, como eu a amava. Por que não me levou, que já era doente sem salvação. Ela tinha tudo, um coração puro, uma mente brilhante, e um amor incondicional. Eu daria tudo, daria a vida para vê-los feliz. Mas deus nunca me deu nada, e o governo sempre me negou tudo.
Pior castigo recebo por ser um lixo, vivo sem amor, sem carinho. Esperando a morte chegar.
Não era por maldade que eu saia todos os dias, em busca de comida pro meu filho, de assistência pra minha família, fazia de tudo, corria, catava, pedia. As vezes deus ajudava, conseguia um pouquinho, as vezes deus nem me olhava, ou ria das minhas lágrimas. E quando deus, me colocava no caminho pessoas de coração bom, que me dava uns trocados, meu coração se enchia de alegria "hoje vou levar pão pro meu filho, e quem sabe não compre um doce pra ele sorrir pra mim", mas como se o mundo fosse o inferno, o diabo subia e se colocava em minha frente. Ele sabia dos meus problemas, ele sabia dos meus defeitos. Eu fraquejava. Bebia. Deus me largava lá e eu não sentia mais amor. Não sei!
Acordava em casa, jogado no chão, em cima da cama, deitado no sofá. Meu filho ainda chorava, minha mulher chorava, com um olho roxo, um nariz sangrando. Minha casinha humilde bagunçada, e minha sogra me dizia "você fez de novo, você precisa se tratar". Oh meu deus, com que dinheiro? O governo me vira a cara, a sociedade me discrimina, meu filho já não me ama.
Fui-me embora. Nada peguei, sai numa noite escura, nunca mais olhei pra trás.
Penso em voltar, mas o medo de magoa-los novamente me faz hesitar e continuar aqui, na rua, dormindo com porcos, comendo do lixo, conversando com pombos e sofrendo por eles e por tudo que perdi.
Soube que minha mulher morreu, na fila de um hospital imundo. E eu não estou lá pra ajudar meu filho que sempre sonhou tanto com uma família feliz. Minha mulher morreu, meu deus, como eu a amava. Por que não me levou, que já era doente sem salvação. Ela tinha tudo, um coração puro, uma mente brilhante, e um amor incondicional. Eu daria tudo, daria a vida para vê-los feliz. Mas deus nunca me deu nada, e o governo sempre me negou tudo.
Pior castigo recebo por ser um lixo, vivo sem amor, sem carinho. Esperando a morte chegar.
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Criancinha desse Brasil
Mamãe morreu na fila esperando atendimento com parada cardíaca, elas disseram que o médico ainda não havia chegado; tinha que esperar. Vovó saiu cedo hoje, com dores na perna pra tentar pegar a aposentadoria, voltou de mãos vazias e foi assaltada na rua... Seria, se tivesse alguma coisa pra ser roubada. Papai eu não sei, sumiu faz tempo, mas foi até bom, ele fumava, bebia, batia em mamãe, xingava vovó e uma vez disse que eu não era filho dele, me batia também, mas depois pedia desculpas, eu sinto falta dele também. Vovô morreu, eu nunca o conheci, ele devia ser lindo. Eu fico em casa com vovó todos os dias, queria poder ir pra escola com os outros meninos, mas não tinha vaga, e vovó não tem dinheiro pra arcar com os custos, é uma pena. Fico aqui, ajudando ela nos afazeres, as vezes tem que pedir comida pros vizinhos. Ela não gosta, mas me divirto, é uma das poucas chances que tenho de sair de casa e ver o resto do mundo. Tem uma moça na outra rua que tem um carro, e mora numa casa azul; grande. Queria ser filho dela, pra ela me levar pra sair todos os dias, e ver o mar, eu só vi o mar uma vez...
Meu tio usa crack, vovó não gosta muito dele, não deixa ele entrar em casa, diz que ele é uma coisa que não posso falar, senão ela me bate, ela diz que criança não pode dizer essa palavra. Eu sinto falta de mamãe, faz nem três meses que ela foi morar com papai do céu. É tudo muito triste, e vovó diz que sou muito pequeno pra entender... Mas ela é uma boba; semana passada, quando fui pedir comida pra mulher da casa azul, tinha um homem falando, pra uma multidão de gente, que se fizesse alguma coisa pra ele que ele chamava de "votar", nossa vida ia melhorar, e tudo ia ser bom, me disse que eu ia entrar na escola, e que os médicos iriam atender rapidinho. Não falei nada pra vovó, quero fazer surpresa! Ela é muito angustiada com essas coisas, semana passada ela me disse que o Brasil é um país de tolos. Poxa vovó, o moço disse que não é, o moço vai dar dinheiro pra gente, e levar a gente pra viajar e ver o mar, você vai ver!
Meu tio usa crack, vovó não gosta muito dele, não deixa ele entrar em casa, diz que ele é uma coisa que não posso falar, senão ela me bate, ela diz que criança não pode dizer essa palavra. Eu sinto falta de mamãe, faz nem três meses que ela foi morar com papai do céu. É tudo muito triste, e vovó diz que sou muito pequeno pra entender... Mas ela é uma boba; semana passada, quando fui pedir comida pra mulher da casa azul, tinha um homem falando, pra uma multidão de gente, que se fizesse alguma coisa pra ele que ele chamava de "votar", nossa vida ia melhorar, e tudo ia ser bom, me disse que eu ia entrar na escola, e que os médicos iriam atender rapidinho. Não falei nada pra vovó, quero fazer surpresa! Ela é muito angustiada com essas coisas, semana passada ela me disse que o Brasil é um país de tolos. Poxa vovó, o moço disse que não é, o moço vai dar dinheiro pra gente, e levar a gente pra viajar e ver o mar, você vai ver!
Vagabundo - Parte 1
O vento frio da noite bate forte em meus cabelos desgrenhados, uma lata velha com um fogo fraco é tudo que tenho pra me aquecer. O papelão em que deito é tão fino e desgastado que não faria diferença entre ele e o chão. Mas, todos os dias quando acordo; agradeço a deus por respirar e peço a ele uma esperança. As vezes acho que ele não escuta, as vezes penso que é assim que deve ser. Eu tenho sonhos, mas prefiro não pensar neles: me dói saber que nem ao menos tive oportunidade de tentar; nasci pobre, cresci mendigo, vivo nas ruas, embaixo dos viadutos, passando fome e vendo muitos irem e virem em seus carros com muito dinheiro, reclamando da vida sem nem ao menos saber o que é sofrimento. O cheiro do lixo, o cheiro da fumaça, o meu cheiro, ardem meu nariz aumentando a dor que já sinto em minha mente, em meu coração, e em meu orgulho; quando tenho que procurar o que comer no lixo, no resto dessas pessoas que reclamam da vida.
Meu nome é ignorado, as vezes nem lembro de ter um; não esta escrito em nenhum papel. Minha idade já parei de contar, mas estou mais perto da morte a cada segundo de fome. Minha vida é um fracasso, e o resto?! Nunca experimentei do resto.
Sofro, acordo com o sol, durmo com a lua, passo frio, passo fome. Nunca matei, nunca roubei, nunca fiz mal. A maldade vem deles, dos ricos, que me expulsam com palavras ríspidas toda vez que peço um trocado, não pra mim, por que da minha vida já estou cansado, mas meu estomago pede, minha barriga dói. Eles tem tudo, mas nunca dividem, não consigo entender quem sofre mais, eles com tudo e toda arrogância, ou eu, sem nada pedinte de uma caridade...
Deus nunca me deu nada, e o governo sempre me negou tudo. O que fazer?
Meu nome é ignorado, as vezes nem lembro de ter um; não esta escrito em nenhum papel. Minha idade já parei de contar, mas estou mais perto da morte a cada segundo de fome. Minha vida é um fracasso, e o resto?! Nunca experimentei do resto.
Sofro, acordo com o sol, durmo com a lua, passo frio, passo fome. Nunca matei, nunca roubei, nunca fiz mal. A maldade vem deles, dos ricos, que me expulsam com palavras ríspidas toda vez que peço um trocado, não pra mim, por que da minha vida já estou cansado, mas meu estomago pede, minha barriga dói. Eles tem tudo, mas nunca dividem, não consigo entender quem sofre mais, eles com tudo e toda arrogância, ou eu, sem nada pedinte de uma caridade...
Deus nunca me deu nada, e o governo sempre me negou tudo. O que fazer?
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