Eu até queria mudar, mas isso me chama todos os dias. Eu ouço em minha mente latejante os gritos de uma coisa inanimada invocando meu nome. É como se dissesse "venha até a mim, você precisa de mim". Me sinto fraco, me sinto incapaz. Já fui um doente, hoje eu sou um animal.
Não era por maldade que eu saia todos os dias, em busca de comida pro meu filho, de assistência pra minha família, fazia de tudo, corria, catava, pedia. As vezes deus ajudava, conseguia um pouquinho, as vezes deus nem me olhava, ou ria das minhas lágrimas. E quando deus, me colocava no caminho pessoas de coração bom, que me dava uns trocados, meu coração se enchia de alegria "hoje vou levar pão pro meu filho, e quem sabe não compre um doce pra ele sorrir pra mim", mas como se o mundo fosse o inferno, o diabo subia e se colocava em minha frente. Ele sabia dos meus problemas, ele sabia dos meus defeitos. Eu fraquejava. Bebia. Deus me largava lá e eu não sentia mais amor. Não sei!
Acordava em casa, jogado no chão, em cima da cama, deitado no sofá. Meu filho ainda chorava, minha mulher chorava, com um olho roxo, um nariz sangrando. Minha casinha humilde bagunçada, e minha sogra me dizia "você fez de novo, você precisa se tratar". Oh meu deus, com que dinheiro? O governo me vira a cara, a sociedade me discrimina, meu filho já não me ama.
Fui-me embora. Nada peguei, sai numa noite escura, nunca mais olhei pra trás.
Penso em voltar, mas o medo de magoa-los novamente me faz hesitar e continuar aqui, na rua, dormindo com porcos, comendo do lixo, conversando com pombos e sofrendo por eles e por tudo que perdi.
Soube que minha mulher morreu, na fila de um hospital imundo. E eu não estou lá pra ajudar meu filho que sempre sonhou tanto com uma família feliz. Minha mulher morreu, meu deus, como eu a amava. Por que não me levou, que já era doente sem salvação. Ela tinha tudo, um coração puro, uma mente brilhante, e um amor incondicional. Eu daria tudo, daria a vida para vê-los feliz. Mas deus nunca me deu nada, e o governo sempre me negou tudo.
Pior castigo recebo por ser um lixo, vivo sem amor, sem carinho. Esperando a morte chegar.
quarta-feira, 18 de abril de 2012
segunda-feira, 16 de abril de 2012
Criancinha desse Brasil
Mamãe morreu na fila esperando atendimento com parada cardíaca, elas disseram que o médico ainda não havia chegado; tinha que esperar. Vovó saiu cedo hoje, com dores na perna pra tentar pegar a aposentadoria, voltou de mãos vazias e foi assaltada na rua... Seria, se tivesse alguma coisa pra ser roubada. Papai eu não sei, sumiu faz tempo, mas foi até bom, ele fumava, bebia, batia em mamãe, xingava vovó e uma vez disse que eu não era filho dele, me batia também, mas depois pedia desculpas, eu sinto falta dele também. Vovô morreu, eu nunca o conheci, ele devia ser lindo. Eu fico em casa com vovó todos os dias, queria poder ir pra escola com os outros meninos, mas não tinha vaga, e vovó não tem dinheiro pra arcar com os custos, é uma pena. Fico aqui, ajudando ela nos afazeres, as vezes tem que pedir comida pros vizinhos. Ela não gosta, mas me divirto, é uma das poucas chances que tenho de sair de casa e ver o resto do mundo. Tem uma moça na outra rua que tem um carro, e mora numa casa azul; grande. Queria ser filho dela, pra ela me levar pra sair todos os dias, e ver o mar, eu só vi o mar uma vez...
Meu tio usa crack, vovó não gosta muito dele, não deixa ele entrar em casa, diz que ele é uma coisa que não posso falar, senão ela me bate, ela diz que criança não pode dizer essa palavra. Eu sinto falta de mamãe, faz nem três meses que ela foi morar com papai do céu. É tudo muito triste, e vovó diz que sou muito pequeno pra entender... Mas ela é uma boba; semana passada, quando fui pedir comida pra mulher da casa azul, tinha um homem falando, pra uma multidão de gente, que se fizesse alguma coisa pra ele que ele chamava de "votar", nossa vida ia melhorar, e tudo ia ser bom, me disse que eu ia entrar na escola, e que os médicos iriam atender rapidinho. Não falei nada pra vovó, quero fazer surpresa! Ela é muito angustiada com essas coisas, semana passada ela me disse que o Brasil é um país de tolos. Poxa vovó, o moço disse que não é, o moço vai dar dinheiro pra gente, e levar a gente pra viajar e ver o mar, você vai ver!
Meu tio usa crack, vovó não gosta muito dele, não deixa ele entrar em casa, diz que ele é uma coisa que não posso falar, senão ela me bate, ela diz que criança não pode dizer essa palavra. Eu sinto falta de mamãe, faz nem três meses que ela foi morar com papai do céu. É tudo muito triste, e vovó diz que sou muito pequeno pra entender... Mas ela é uma boba; semana passada, quando fui pedir comida pra mulher da casa azul, tinha um homem falando, pra uma multidão de gente, que se fizesse alguma coisa pra ele que ele chamava de "votar", nossa vida ia melhorar, e tudo ia ser bom, me disse que eu ia entrar na escola, e que os médicos iriam atender rapidinho. Não falei nada pra vovó, quero fazer surpresa! Ela é muito angustiada com essas coisas, semana passada ela me disse que o Brasil é um país de tolos. Poxa vovó, o moço disse que não é, o moço vai dar dinheiro pra gente, e levar a gente pra viajar e ver o mar, você vai ver!
Vagabundo - Parte 1
O vento frio da noite bate forte em meus cabelos desgrenhados, uma lata velha com um fogo fraco é tudo que tenho pra me aquecer. O papelão em que deito é tão fino e desgastado que não faria diferença entre ele e o chão. Mas, todos os dias quando acordo; agradeço a deus por respirar e peço a ele uma esperança. As vezes acho que ele não escuta, as vezes penso que é assim que deve ser. Eu tenho sonhos, mas prefiro não pensar neles: me dói saber que nem ao menos tive oportunidade de tentar; nasci pobre, cresci mendigo, vivo nas ruas, embaixo dos viadutos, passando fome e vendo muitos irem e virem em seus carros com muito dinheiro, reclamando da vida sem nem ao menos saber o que é sofrimento. O cheiro do lixo, o cheiro da fumaça, o meu cheiro, ardem meu nariz aumentando a dor que já sinto em minha mente, em meu coração, e em meu orgulho; quando tenho que procurar o que comer no lixo, no resto dessas pessoas que reclamam da vida.
Meu nome é ignorado, as vezes nem lembro de ter um; não esta escrito em nenhum papel. Minha idade já parei de contar, mas estou mais perto da morte a cada segundo de fome. Minha vida é um fracasso, e o resto?! Nunca experimentei do resto.
Sofro, acordo com o sol, durmo com a lua, passo frio, passo fome. Nunca matei, nunca roubei, nunca fiz mal. A maldade vem deles, dos ricos, que me expulsam com palavras ríspidas toda vez que peço um trocado, não pra mim, por que da minha vida já estou cansado, mas meu estomago pede, minha barriga dói. Eles tem tudo, mas nunca dividem, não consigo entender quem sofre mais, eles com tudo e toda arrogância, ou eu, sem nada pedinte de uma caridade...
Deus nunca me deu nada, e o governo sempre me negou tudo. O que fazer?
Meu nome é ignorado, as vezes nem lembro de ter um; não esta escrito em nenhum papel. Minha idade já parei de contar, mas estou mais perto da morte a cada segundo de fome. Minha vida é um fracasso, e o resto?! Nunca experimentei do resto.
Sofro, acordo com o sol, durmo com a lua, passo frio, passo fome. Nunca matei, nunca roubei, nunca fiz mal. A maldade vem deles, dos ricos, que me expulsam com palavras ríspidas toda vez que peço um trocado, não pra mim, por que da minha vida já estou cansado, mas meu estomago pede, minha barriga dói. Eles tem tudo, mas nunca dividem, não consigo entender quem sofre mais, eles com tudo e toda arrogância, ou eu, sem nada pedinte de uma caridade...
Deus nunca me deu nada, e o governo sempre me negou tudo. O que fazer?
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